quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Carta de 20 minutos


Feche os olhos. Imagine uma tarde de verão ensolarada. É férias, aquela tranquilidade, calmaria, liberdade. Uma brisa morna e leve está entrando pela janela e balançando a veneziana, produzindo um som leve e lento, quase preguiçoso. A cortina se move fazendo ondas para frente a para trás como as marolas do mar chegando na areia. O vento traz um aroma confortável de piscina com protetor solar e bolinho de chuva acompanhado de suco ou coca-cola. Você escuta o som do silencio e pode identificar lá longe, bem de fundo, sons distantes de motores de carros e caminhões, distantes, como se não se importassem com o cenário bonito do mundo. Você simplesmente sente a brisa morna no corpo e a sensação de paz interior, tranquilidade, inabalo. Foi assim que começou a minha segunda-feira. Exceto que faltava alguma coisa. Alguma coisa não estava lá. Alguma imagem, aquelas formas, o cheiro. Algo não estava lá. Faltava o seu carro parado em frente ao meu portão, o som do freio de mão sendo puxado, uma leve buzinada e, logo em seguida, a vibração do meu celular em cima da penteadeira. "Tenho que ir logo, não posso atrasá-lo". Não me importava o meu horário. O som da chave abria a porta, o som do portão...
     - Bom dia?
     - Bom dia! (e era mesmo!)
O mesmo lugar, com uma sacolinha encaixada no cambio com alguns papéis de bala e chocolate dentro, juntos com comprovantes de maquininha de cartão de crédito amassados. Papeis e apostilas jogados no banco de traz pelas curvas da estrada a 140 por hora. E você, tamborilando os dedos no volante cantando o trecho de alguma música engraçada ou fazendo suas próprias versões engraçadas de musicas não tão engraçadas. Quantas histórias esse carro não seria capaz de contar? Histórias nossas e, talvez, um pouco de História Geral (se caso fosse capaz de ler suas provas e apostilas). As vezes um jaleco pendurado no banco com alguns bilhetes dentro do bolso, aqueles que você as vezes (sempre) implica por eu querer ler. Conversas, muitas vezes monólogos, preenchem o meu silencio típico das 7 horas da manhã e o seu ânimo inabalável de inicio de semana, de inicio de inúmeras viagens, várias cidades diferentes, muitas provas, cobranças, gente chata, poucas horas de sono, um mestrado, mil páginas de dissertação e uma orientadora. Não sei se já te contei quantas vezes, durante esses momentos, eu admirei sua alegria e seu olhar sempre com ruguinhas de felicidade. Essa era a minha segunda-feira entre as 7:40 e 8:00 horas da manhã. Preciso confessar que esses vinte minutos faziam o meu dia. Faziam a minha semana, quase inteira sem você. Se eu fechasse os olhos, como pedi ali no começo, seria como se eu estivesse naquele dia quente e ensolarado de férias. Bastou um dia para que eu sentisse falta de todas essas grandes pequenas coisas que cabiam no espaço mínimo de vinte minutos. Nesta segunda-feira, uma calmaria estranha preencheu esses vinte minutos. Eu estava bem, mas algo estava vazio. O som e o cheiro eram diferentes. Agora eu tenho a confirmação de como os meus momentos com você, mesmo que curtos, são definitivos. Todos completam algum vazio e, por mais que pareça impossível, eu me satisfaço. É esse o efeito que pessoas incríveis causam. Você é a minha pessoa incrível que por mais defeitinhos que possa ter, suas grandes qualidades compensam. Nesta segunda-feira, não vi seu carro parado no meu portão, nem ouvi o som do freio de mão, nem da buzina e nem da vibração do celular. Estranho. Diferente. Vazio. Era importante ter você nesse momento. Porém, sei que ainda tenho todos os outros momentos com você e saiba que sempre me lembrarei de todos eles, mas desses vinte minutos, desses eu sempre terei saudade.